quarta-feira, 22 de abril de 2026

Distância

o quê eu    denomino
                 domino?
quem eu    demonizo 
                 dogmatizo?
quem dera domesticar
                 doutrinar? 
quero        doravante
              a distância...

 

Indiferente

é 
diferente 
pra você? 
não, sei bem,
você é
indiferente; 
o quê 
difere 
é você 
não os
outros...

domingo, 12 de abril de 2026

Tanto faz...

 

pra mim tanto faz a chuva que assola  
         tanto faz que nos arrabaldes caia raios
pra mim tanto faz o chuvisco que viola
         tanto faz que nos arredores saia ratos
  
pra mim tanto faz se o pedido for solene
         tanto faz a despedida sem parecer ser
pra mim tanto faz se o pior for pra dois
         tanto faz o desprezo ser o de fato é
 
pra mim tanto faz o estrondo ser a causa do seu despertar
         tanto faz ter que ignorar ruídos seus
pra mim tanto faz o silêncio ser o seu comunicar
         tanto faz ter que isolar a claridade solar
 
pra mim tanto faz o modo genuíno de sobressair
         tanto faz ser e não constar como
pra mim tanto faz o legítimo e iminente destruir
         tanto faz ser e em vão tentar o oposto.
 
‘pra mim tanto faz a névoa úmida’ M. Tsvetáieva

domingo, 18 de janeiro de 2026

O seu silêncio

 

o seu
   silêncio  
é
elouqüente
é        um
estrondo
é
esdrúxulo
 
o seu
   silêncio
   sabe me
espezinhar
ele sabe destilar
escárnio
enfadar meu
êxtase
 
o seu
   silêncio
evoca o fastio
enluta o quê poderia
enleva o quê não mais
enternece o quê supus
 
o seu
   silêncio 
esculhamba minhas tentativas
                     minhas tentações
 
o seu
   silêncio
emparedou meu
espectro         e
este (por sua vez)
estarrecido foi
extirpado de forma
encantadora.   

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Efêmeros

passei
passamos
e o quê ficou
o quê resta
no fundo da memória ‘Alzheimer’
na lembrança de lapsos
o quê ficou
em cada âmago
o vazio
o esquecimento
puro e simples...
 
passei
passamos
ela foi mais brutal que o
capitão Nascimento
me pedindo pra sair
pra sumir
covarde que sou
sai pela portinhola
que estava entreaberta
pulei a pequenina janela
do sótão
esgueirei pela fresta
mal iluminada...
 
passei
passamos
o segundo andar
congelou corações
como uma noite de nevasca
no deserto
não mais
nenhuma aurora boreal
trará de volta
o frescor
da primeira manhã de outono
que adentra
sorrateiramente pela
epiderme...
 
passei
passamos
e o ‘tal’ amadurecimento
permanece lá entre felinas
ferozes leoas defendendo
suas crias
(sic)
inatingível...   



quarta-feira, 14 de maio de 2025

Seria...

Seria um
desgastes 
desnecessário
então,
falarei somente das
folhas caídas
à revelia do
vento...
 
seria um
desperdício
descabido
portanto,
lembrarei apenas
o que fôra dito
aleatoriamente
sobre o sorriso
verdadeiro do catador de recicláveis
naquela nublada manhã...
 
seria uma
desavença
desconfortável
entanto,
destacarei só
o último diálogo
non sense
com o espectro
rivalizador, 
semelhante ao seu
semblante ameaçador...
 
seria um
descarte
desmoralizante
logo,
manterei exclusivamente
na prateleira defronte,
seus insultos e descasos
para não se perder
na memória,
o suco ígneo e escaldante
da incompatibilidade...  




domingo, 16 de março de 2025

Não se glorie (os 3 is)

 Não se glorie,
por ter sido
tão turrona
(terra seca, esturricada)
no trato com outrem
‘’comigo’’.
 
Não se glorie,
por ter sido
tão você mesma
na sua pura essência.
 
Não se glorie,
por ter desempenhado
tão bem o que de fato
vós sois verdadeiramente
e demonstrar
tão claramente
aquilo que não
consegues esconder.
 
Não se glorie,
nem tente fingir
sentimentos vãos 
os verdadeiros querendo ou não
sempre emergem
nos pequenos detalhes:
indiferença,
ao abrir a porta quando chego
impaciência,
ao responder uma qualquer indagação
ignorância,
ao recusar carinho e afeto e energia,
‘’ não se atreva’’.
 
Não se glorie,
aconteceria num qualquer
momento silente,
de um jeito menos ruidoso,
aconteceria à luz
do vazio
do alívio
e estaria posto
como mormente
desaba a aurora.
 
Resta pouco entre
a memória
a imaginação
as tralhas
dentre esses os rabiscos
que esqueci de enviar
(dias tardios):
‘não pude voltar, espero que entendas’!   


segunda-feira, 10 de março de 2025

Alheio à afetação

 

Absorto na luta
irracional da mosca
e seu desespero no vidro
e eu incapaz de simplesmente
abrir a janela...
... e ela lá,
tergiversando sobre a melhoria
das universidades federais com
o aumento do funcionalismo.
 
Absorvido no rugir
silencioso da formiga
defendendo com afinco
um delicioso naco de açúcar...
... e ela lá,
balbuciando desconexas frases
sobre poesia francesa,
petelecos sobre literatura russa.
 
Abstraído na gatinha preta
que se alongava sob
o ruidoso ventilador de teto
enquanto eu bocejada de tédio...
... e ela lá,
falando como se estivesse
elaborando um raciocínio lógico
brilhante e inovador.
 
Alheio à toda
aquela afetação
eu só pensava
em ir pra casa
beber um vinho
e assistir a
2* temporada de
Ruptura.