domingo, 13 de agosto de 2017

Enfio sim



enfio,
enfio sim, com o mesmo prazer feito na
abandonada, na
    rejeitada, na
       danada.

enfio,
enfio sim,
com aquela fúria destinada
à    bagaça,
à   carcaça,
à desgraça.
  
enfio,
enfio sim,
seguindo o torpe e pueril ímpeto
da  ofendida
da aparecida
da esquecida.

enfio,
enfio sim,
com o devasso furor requerido 
pela indecente
pela   contente
pela   demente.

enfio
enfio sim,
 qual fiz  na
     atriz, na
   infeliz, na
meretriz.
                                                                                                                                                   

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Perdendo sempre



Perde-se
sempre
perdendo sempre
perdi o último
pôr-do-sol
e fazia frio
perdendo o que
estava por ficar
sempre perdendo
oportunidades de dizer
só o relevante
revelar o silêncio
perdendo o calar
o menos que quase
ou
o nunca nada muda
perde-se
e estava perto
parecia estagnado
mas cambaleava
corroía e ruía
pulo o sensato
desacato quem mesmo?
rubro e rijo 
fico
perdendo sempre
estou 
sempre perdendo  
o quê
de fato
nunca foi meu. 

                                             Foto: Israel Faria

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Nossa relação



Nossa relação é
úmida
tem verve
vem do cerne de nós
adquiriu estranhamente &
maleabilidade
causa arrepios
irritações  
causa muito, muito mais
está sempre por um triz
com projeto para o
ano próximo
estrada/brinde/flashes.    

Nossa relação é
temperamental  
tem tempero
por vezes amargo
ora doce
requer orgasmos
pede sono
carona na chuva rola.

Nossa relação é
desprovida
tem desgaste
desmandos e inventividade
carece de atenção
veladas obrigações
satisfações e
questionamentos.

Nossa relação é
frágil  
fantasiosa e infrutífera
tem festas, regalos e afins
biritas, brigas e birras
vem com febre
com vontades multiplicadas
traz  aperitivos
ajuda nos preparativos
espera por sobremesa.

Nossa relação é
pulsante
crê no medo
no insólito, nas miragens
olha com desconfiança
a longevidade
e o que é fácil
anda perto de paranoias
tem sobressaltos
descarrila paradigmas
vem cheia de disparates.

Nossa relação é
um lixo
frequentemente repugnante
tem baba, sangue e coceira
vislumbra hematomas
tem que impugnar
viril nos insultos
acumula desafetos
sangra como um feto abortado
não pede bênção
está para a frialdade assim como 
para a quentura dos quintos
e não adianta
não rogamos nada
nem ouvimos
ninguém.   

domingo, 30 de julho de 2017

Está no estatuto



está no estatuto
preocupe-se com o hímen
com a
inviolabilidade
ela só tem 13
é de vulnerável
está no estatuto
toalha na janela
imbecil
você desfigura  
a panorâmica  
está no estatuto
não vá à geladeira
as duas da madrugada
pelado
em busca do resto da
guacamole 
está no estatuto
ainda é pouco
carinho gentileza
elogios prestatividade
tesão permanente
ainda é pouco
está no estatuto
largue o encosto  
o suposto
cresça
corte o cabelo  
faça  a barba
está no estatuto
assuma responsabilidades
ou suma
está no estatuto...

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Não farei parte do adestramento circense



Chute na canela
não penso no coletivo
não sigo matilhas
cachorro sou
               sozinho & errante
não preciso que me digam a direção
é pra lá que não vou
                    não exijo nada
                    nado no turvo
                    nada esperem de mim
destituo a obediência canina
rosno ruídos guturais
mostro a dentição
incomodo os normais
acomodo nos leitos
provoco ais
repelem minha aparição
              minha inanição
                                 cão, sim
podem apostar
podem apontar o dedo
            apontar defeitos
não farei parte do adestramento circense 
mastigo o quê tiver
bebo se chover
deito na sombra que sobrar
cão sardento & uivante
cão petulante
  de pulantes pulgas, carrapatos e uma
       parasita que morrerá comigo
importa pouco se não me amam
favor nenhum fazem
mas, não venham me achincalhar
         cão danado
         cão     andaluz
         cão sem dono***
 cachorro sem sorte
                        surtar 
eu posso
     paguem pra ver
       agora         venha
sirva-me cachaça com mel e canela
                                    minha cadela.
***Três filmes:
Cão Danado: Akira Kurosawa, Japão 1949.
Um Cão Andaluz: Luis Buñel, Espanha 1929.
Cão Sem Dono: Beto Brant, Brasil 2007.