quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Rascunho redescoberto

ruge o signo que
resplandece,
a espirituosa flâmula
que                 floresce
que          desflora
os dias grisnegros,
vulcânica
cratera deixaste,
raspando com
fúria minha pétrea epiderme e
ferindo com
férreo olhar o
fustigado âmago meu,
fini pensares em
fulguras que
solve o palato
quasestrela,
tudo que
ficou foram
gemidos
sussurros
migalhas e um
inaudível
réquiem
    quem   
romperá a
boreal aurora e
trará o
sanguinolento
plenilúnio nosso...
  

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Casca(o)

 

casca de jatobá
casca de jaboticaba
 
casco de jaboti
casco de jararaca
 
casca de jurubeba
casco de jumento
 
tu – dando botes e coices
eu – descascando impropérios.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Distância

o quê eu    denomino
                 domino?
quem eu    demonizo 
                 dogmatizo?
quem dera domesticar
                 doutrinar? 
quero        doravante
              a distância...

 

Indiferente

é 
diferente 
pra você? 
não, sei bem,
você é
indiferente; 
o quê 
difere 
é você 
não os
outros...

domingo, 12 de abril de 2026

Tanto faz...

 

pra mim tanto faz a chuva que assola  
         tanto faz que nos arrabaldes caia raios
pra mim tanto faz o chuvisco que viola
         tanto faz que nos arredores saia ratos
  
pra mim tanto faz se o pedido for solene
         tanto faz a despedida sem parecer ser
pra mim tanto faz se o pior for pra dois
         tanto faz o desprezo ser o de fato é
 
pra mim tanto faz o estrondo ser a causa do seu despertar
         tanto faz ter que ignorar ruídos seus
pra mim tanto faz o silêncio ser o seu comunicar
         tanto faz ter que isolar a claridade solar
 
pra mim tanto faz o modo genuíno de sobressair
         tanto faz ser e não constar como
pra mim tanto faz o legítimo e iminente destruir
         tanto faz ser e em vão tentar o oposto.
 
‘pra mim tanto faz a névoa úmida’ M. Tsvetáieva

domingo, 18 de janeiro de 2026

O seu silêncio

 

o seu
   silêncio  
é
elouqüente
é        um
estrondo
é
esdrúxulo
 
o seu
   silêncio
   sabe me
espezinhar
ele sabe destilar
escárnio
enfadar meu
êxtase
 
o seu
   silêncio
evoca o fastio
enluta o quê poderia
enleva o quê não mais
enternece o quê supus
 
o seu
   silêncio 
esculhamba minhas tentativas
                     minhas tentações
 
o seu
   silêncio
emparedou meu
espectro         e
este (por sua vez)
estarrecido foi
extirpado de forma
encantadora.   

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Efêmeros

passei
passamos
e o quê ficou
o quê resta
no fundo da memória ‘Alzheimer’
na lembrança de lapsos
o quê ficou
em cada âmago
o vazio
o esquecimento
puro e simples...
 
passei
passamos
ela foi mais brutal que o
capitão Nascimento
me pedindo pra sair
pra sumir
covarde que sou
sai pela portinhola
que estava entreaberta
pulei a pequenina janela
do sótão
esgueirei pela fresta
mal iluminada...
 
passei
passamos
o segundo andar
congelou corações
como uma noite de nevasca
no deserto
não mais
nenhuma aurora boreal
trará de volta
o frescor
da primeira manhã de outono
que adentra
sorrateiramente pela
epiderme...
 
passei
passamos
e o ‘tal’ amadurecimento
permanece lá entre felinas
ferozes leoas defendendo
suas crias
(sic)
inatingível...   



quarta-feira, 14 de maio de 2025

Seria...

Seria um
desgastes 
desnecessário
então,
falarei somente das
folhas caídas
à revelia do
vento...
 
seria um
desperdício
descabido
portanto,
lembrarei apenas
o que fôra dito
aleatoriamente
sobre o sorriso
verdadeiro do catador de recicláveis
naquela nublada manhã...
 
seria uma
desavença
desconfortável
entanto,
destacarei só
o último diálogo
non sense
com o espectro
rivalizador, 
semelhante ao seu
semblante ameaçador...
 
seria um
descarte
desmoralizante
logo,
manterei exclusivamente
na prateleira defronte,
seus insultos e descasos
para não se perder
na memória,
o suco ígneo e escaldante
da incompatibilidade...